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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

De Ilha-presídio a Ilha-paraíso

Praia de Dois Rios. Foto: Juliana Fernandes

Nem só de praia vive a Ilha Grande. Sua história é envolvida pela beleza cênica, com certeza! Mas até 1990, funcionava na Ilha, primeiramente, um Lazareto que serviu para triagem e quarentena para passageiros doentes que desembarcavam no Brasil, com cólera, chegando a atender mais de quatro mil embarcações durante os 28 anos de funcionamento. Em 1889, Dom Pedro II foi levado ao Lazareto na condição de prisioneiro onde aguardou o transporte que o levaria para o exílio.

Em 1902, o Presidente Marechal Floriano Peixoto determinou que o Lazareto fosse usado como presídio político, já que estava sendo pouco utilizado como leprosário. Mas só contei isso para que entendam que a Ilha teve dois presídios - o Lazareto, que teve sua função alterada para presídio; e o Instituto Penal Cândido Mendes, instalado na Vila de Dois Rios. Vi um vídeo no youtube, o que me motivou a fazer essa postagem.


Ruínas do Lazareto, na Praia Preta (Vila do Abraão). Foto: Juliana Fernandes.

Voltando ao assunto... Depois, como foi construído o presídio de Dois Rios, os presos políticos foram do Lazareto para ela transferidos, sendo utilizado para os presos comuns e, depois de um tempo, ficando sem serventia.

Presídio de Dois Rios (ruínas). Foto: Juliana Fernandes.

Juntamente com a construção do presídio, foram construídas residências para os seus funcionários, guardas,  na Vila de Dois Rios.

Em 1985, o Instituto Penal Cândido Mendes é cenário para uma das maiores fugas do Brasil. “No último dia do ano, o traficante José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, foge da
penitenciária” (http://www.ilhagrande.org), tendo sido resgatado de helicóptero.

Em 1990, o presídio teve suas portas fechadas, e, em 1994,  “por ordem do então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola e do secretário de Justiça Nilo Batista” (http://www.ilhagrande.org), o Instituto
Penal Cândido Mendes, chamado popularmente de Caldeirão do Diabo, foi implodido, para
o que foram usados 200 quilos de dinamite.

Vejam esse vídeo, com um trecho do Jornal Nacional, e que retrata a implosão do antigo presídio da Ilha Grande, Instituto Penal Cândido Mendes. Hoje, nele funciona um Ecomuseu, que conta um pouco dessa história toda! O vídeo está neste link: https://www.youtube.com/watch?v=5gM2mgXc2Io .

Ecomuseu. Foto: Juliana Fernandes.

Mais um detalhe. Vários nomes conhecidos estiveram presos lá na Ilha Grande: Graciliano Ramos*, Orígenes Lessa, Agildo Barata e André Torres,  Madame Satã, Fernando Gabeira, Flores da Cunha e Luiz Carlos Prestes, o escritor Nelson Rodrigues, além do próprio Escadinha e de Lúcio Flávio.

* Em sua permanência no Presídio da Ilha Grande, Graciliano Ramos escreveu a obra "Memórias do Cárcere".

Enfim, há muito o que conhecer na Ilha, não só praias, não só cachoeiras,  tampouco só trilhas. Há vida passada e vida presente! Não é apenas um "pedaço de terra cercada de água por todos os lados", é um sistema, um organismo vivo, dinâmico. Vamos conhecer?



terça-feira, 13 de maio de 2014

Praia do Bananal, Ilha Grande, RJ. Parte II: Angra - Praia do Bananal

Demorei mais do que o previsto para postar a 2ª parte da viagem. Desculpem! Continuemos com a Parte II da viagem para a Praia do Bananal, na Ilha Grande, RJ. Na postagem anterior, fizemos o trajeto entre Brasília e Angra dos Reis. O próximo passo é a travessia, o que eu não fiz no mesmo dia. Quem me conhece sabe que meu noivo mora em Angra dos Reis e, por isso, antes de ir para a Ilha, passei um tempo por lá. Mas voltemos à travessia.
Angra dos Reis ficando para trás. Foto: Juliana Fernandes 
Lembre-se de levar reservado algum dinheiro para a Ilha Grande, porque lá não há caixas eletrônicos, e, se preferir, leve consigo alguns petiscos, já que também não tem mercado, nem farmácia no Bananal. O que há lá são as pousadas e "biroscas" que vendem bebidas, balinhas e biscoitos.

Outra opção é o Barco Samara, do Elias. Ele mora lá e trabalha com transporte fretado. Mas não fomos no Samara, porque já estava ocupado com outro serviço. Alugamos um barco no cais de Angra, o Lambido, o que é outra possibilidade. O trajeto teve duração de cerca de 1h20, o que poderia ter diminuído caso fôssemos de lancha, mas não me importo com a duração da viagem, já que eu aproveito cada minuto da experiência. Enquanto isso, nada melhor que conversar com o marinheiro sobre o mar, os ventos, a Ilha, causos e saber notícias da Ilha. No meio do caminho, encontramos esses navios fazendo uma transferência ship to ship de petróleo. Vejam:

Ship to ship. Foto: Juliana Fernandes.

Chegando ao Bananal, você já verá as pousadas em que pode se hospedar. Elas ficam de frente para o mar.  Muito importante é que essas pousadas geralmente já oferecem ao hóspede o traslado Angra-Bananal. Dessa vez, eu fiquei em uma casa no canto esquerdo do Bananal, bem perto do verde, dos bichos, da cachoeira, mas essa não é uma opção comum de hospedagem. Nossa vizinha era uma senhora que adora cantar. E começava a cantoria bem cedo.

Chegando à Praia do Bananal. Foto: Juliana Fernandes.

Barquinhos no Bananal. Foto: Juliana Fernandes.

Eu não queria falar do assunto, mas muita gente ouviu falar do deslizamento que ocorreu na Ilha Grande na virada de ano de 2009 para 2010. Isso ocorreu no Bananal. Na época, correu o boato de que a Ilha Grande estava "interditada" por conta disso, entretanto não passou de boato. A enseada do Bananal é linda, está tudo tranquilo, não há risco de desabamento.

Mas, falando acerca de coisas mais legais, não só o Bananal, mas em toda a Ilha Grande, você encontrará uma biodiversidade encantadora, e diversas atividades que valem a pena. Você pode fazer caminhadas nas trilhas, que ligam as diversas praias, pode fazer mergulho com snorkel ou o scuba (com cilindro), passeios de barco, observação de fauna e flora, pescar no cais ou simplesmente relaxar na praia!

No Bananal, escolhemos a Praia do Demo (Bananalzinho) como recanto de descanso. É uma praia ao lado da Praia do Bananal, separada apenas por pedras. Há um caminho com escada que leva até o Bananalzinho, que passa por baixo do restaurante ao lado da Pousada Casa Nova.

Pousada Casa Nova, vista do restaurante. Essa escada, disseram, é para uso dos hóspedes. A pública fica do lado direito. Foto: Juliana Fernandes.

Barco a vela, visto desse restaurante, que é como um mirante. Foto: Juliana Fernandes.

Bananal, visto do Bananalzinho. Foto: Juliana Fernandes.

 
Praia do Demo (Bananalzinho). Foto: Juliana Fernandes.

Numa manhã, fomos para a Praia de Matariz. Gastamos 1h30, fomos parando, tirando fotos, esperando uns aos outros. Achei uma trilha tranquila, apesar de um trecho, no início da trilha, em que há uma rocha escorregadia, sobre a qual é preciso passar, por onde corre um riacho bem pequeno. Mas, passando com cuidado, pisando nas partes secas, pelos cantos, e com um apoio, passa-se tranquilamente. Eu passei por um pequeno caminho de terra acima dessa rocha. Bem melhor!

Pedra escorregadia na Trilha para Matariz. Foto: Juliana Fernandes.

No meio da trilha, há uma placa que indica o caminho para o Sítio Forte, com uma bifurcação. Na lateral dessa placa, improvisaram um "Matariz ->". Fomos por esse caminho, para a direita, e, bem, saímos no Matariz. Meninos, "não façam isso em casa!". Não saiam pegando qualquer caminho, sigam as placas, para não se perderem. Fiz isso porque estava com pessoas que conhecem o caminho para Matariz. Cuidado com o lugar em que você se apóia, pode ser em uma urtiga, ou pode ser uma cobra ou um inseto. Atente-se! Abaixo, algumas fotos da trilha Bananal-Matariz, com comentários:

Resultado de encostar em uma urtiga. Foto: Juliana Fernandes.

Mico-estrela. É uma graça, mas é considerado exótico na Ilha Grande. Alimenta-se dos ovos de pássaros endógenos. Foto: Juliana Fernandes.

Placa que comentei acima. Seguimos pela direita. Foto: Juliana Fernandes.

Chegada em Matariz. Foto: Juliana Fernandes.

Praia de Matariz. Foto: Juliana Fernandes.
  

Igreja de Santa Ana, em Matariz. Foto: Juliana Fernandes.

Canário-da-terra. Foto: Juliana Fernandes.

Foto: Juliana Fernandes.

Foto: Juliana Fernandes.

A antiga fábrica de sardinha de Matariz, com nome de "Kamome".  Na Ilha, existiam diversas fábricas de beneficiamento de sardinha, dirigidas por japoneses. Todas fecharam. Restam as ruínas. Foto: Juliana Fernandes.

Garça aproveitando-se de sua parada sobre um antigo barco. Foto: Juliana Fernandes.

Canto da Praia de Matariz em frente à Fábrica de Sardinha. Foto: Juliana Fernandes.

O pequeno Pipoca nos acompanha em nossa saída de Matariz. Foto: Juliana Fernandes.

Macaco Bugio, que deve ter sido expulso do bando ou caiu de uma árvore. Resta a esse "adolescente" procurar outro bando. Foto: Juliana Fernandes.

Foto: Juliana Fernandes.

Bananal, visto da trilha do trilha Matariz - Bananal. Foto: Juliana Fernandes.

Também observamos bastante a fauna e a flora do lugar. O tié-sangue chama muito a atenção de quem o vê. Claro, não é sempre que se observa um pássaro flamenguista pousando por perto. Brincadeira à parte, esse pássaro vermelho e preto atrai os olhares de qualquer um que tem a chance de ver um de perto.

Tié-sangue. Foto: Juliana Fernandes.

Tico-tico. Foto: Juliana Fernandes.

Tico-tico. Foto: Juliana Fernandes.

Sabiá. Foto: Juliana Fernandes.

Essa época, entre março e abril, é a época de pegadeira de lula, e esse ano, a pegadeira estava muito boa. Todo dia, via-se alguém indo para o mar de canoa e voltando com ao menos uma lula que pegou com o zangareio (um tipo de anzol com várias pontas, para pegar lula). Eu mesma tentei ir, mas como as canoas lá eram para 1 pessoa e eu nunca entrei numa canoa no mar, sozinha, não me deixaram fazê-lo. Quem sabe um dia? Pelo menos, pescamos alguns peixinhos do cais para fritar para o almoço. Detalhe: almoço às 16h!

Foto: Juliana Fernandes.

Pescador na canoa canadense. Foto: Juliana Fernandes.

Outra foto que gostaria muito de mostrar é da fruta-pão no pé. Esse pé de fruta-pão fica plantado em frente à casa que fiquei, é a casa da Vó Augusta, minha querida vozinha que eu ganhei. Tomamos café com fruta-pão cozida. É uma maravilha, e está na época. Na Ilha é comum ouvir que tomavam café com fruta-pão, ou inhame ou batata doce. É interessante experimentar esses costumes.

Fruta-pão no pé. Foto: Juliana Fernandes.

O importante é relaxar, fazer o que te faz feliz, afinal, viajar é isso, conhecendo o diferente, e novas pessoas, culturas diversas. E sempre fica a saudade do lugar lindo, com a promessa de voltar e ir adiante, porque ficaram lugares sem conhecer, como a Praia de Bananal Pequeno, a Tapina (Mirante do Bananal), e outras praias seguindo a trilha de Matariz. Ilha Grande, nos aguarde novamente, aí vamos nós em breve!

Bananal ficando para trás. Foto: Juliana Fernandes.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Praia do Bananal, Ilha Grande, RJ. Parte I: Brasília - Rio - Angra

Voltei da Ilha Grande na última semana de espírito renovado. Foi quando resolvi acessar o Facebook pelo celular "com mais afinco" para saber das novidades, já que aqueles haviam sido dias de quase completo desligamento do mundo virtual (só pega sinal de celular na praia e em mais alguns poucos lugares). Algumas postagens diziam "Eu sou macaco", outras diziam "Não sou macaco". Mas como eu poderia saber que essa era uma campanha instantânea e polêmica contra o racismo, se meus dias na Ilha foram de paz e desligamento do estranho mundo urbano em que vivemos?

Coincidência ou não, meu destino foi a Praia do Bananal, nessa ilha que é considerada a 2ª Maravilha do Rio de Janeiro (o Estado). Macacos à parte, eu sempre quis conhecer a Praia do Bananal e outras do lado a noroeste da Ilha, tendo em vista que são os lugares a que ainda não tinha ido. Faltam algumas praias para conhecer, mas isso só me deixa feliz, tenho sempre a desculpa de voltar lá e conhecer mais alguma coisa que ainda não vi. Tendo já marcado historicamente minha viagem no tempo, vou começar a contar um pouco dessa experiência e a dar algumas dicas importantes.

(Imagem do Google Maps, adaptada).

Meu voo estava marcado para as 9h20 da manhã do dia 15 de abril de 2014. Aeroporto lotado, pessoas sentadas pelo chão, deitadas sobre os bancos e mesas, loucura! Houve um certo atraso, justificado, porque vários destinos do país estavam debaixo de chuva intensa e nevoeiro. Lembro que o aeroporto Santos Dumont, no Rio, ficou algum tempo fechado e todos os voos foram transferidos para o Galeão, que era meu destino.
Dica: Se você estiver em outro Estado e quiser ir direto para Angra dos Reis, procure ir não tão tarde, porque lá é longe da cidade do Rio. Quem vai de São Paulo, é melhor ir de ônibus!
Voltando ao assunto, eu já tinha comprado minha passagem de ônibus pela internet, porque às vezes ocorre de todas as passagens serem compradas e aí você pode ficar na mão. Então, por mais que eu corra o risco de perder o ônibus por atraso no avião, ainda prefiro, a ter que esperar por cerca de 6 horas por um ônibus com vaga, ou, pior que isso, ter que esperar o dia posterior. Pois é! O voo atrasou, a bagagem despachada demorou a aparecer na esteira, e cada minuto era crucial.


Na frente do Galeão, existem ônibus executivos que fazem o trajeto ou para o Santos Dumont, ou para a Zona Sul do Rio, ou para a Central do Brasil (centro da cidade) ou para a Rodoviária Novo Rio, e custam entre R$ 8 e R$ 13. Cheguei à Novo Rio e fui ao guichê da empresa Costa Verde (única empresa a fazer o trajeto direto entre Rio e Angra/Paraty) para trocar o comprovante de compra pela passagem (não esqueça de fazer isso se comprar pela internet!). Mas, apesar da correria, ainda deu tempo de comprar um lanchinho e entrar no ônibus. A viagem de ônibus do Rio até Angra dura 3h em média, com uma parada na Parada Costa Verde, no município de Itaguaí, passando pela Rodovia Rio-Santos (BR-101).
Se você quiser curtir o mar como paisagem, na Rio-Santos, no trecho Rio-Angra(ida), você deve escolher as poltronas do lado esquerdo do ônibus (lado do motorista). Devo dizer que é uma vista linda mesmo. No trecho Angra-Rio (volta), escolha as poltronas do lado direito.


Há horários em que o ônibus da Costa Verde passa dentro da vila da Verolme (Brasfels), que é o Estaleiro. Não se assuste (hehehe), já já ele sai de lá e segue viagem para o Terminal Rodoviário de Angra dos Reis. Chegando a Angra, dependendo do horário, você não encontra mais transporte para a Ilha Grande (barca, escuna, catamarã, taxi boat), aí você já deve ter reservado algum hotel lá, mas isso é outra história. Ou, se você alugou algum barco, o que foi o meu caso, ótimo, depende da hora combinada com o mestre, o marinheiro. Muito importante é que só tem um barco que vai de Angra ao Bananal (objetivo dessa viagem), que sempre fica lotado de moradores com suas compras. Mas isso, veremos na Parte II da nossa viagem, na postagem seguinte.

Atenção, passageiros, vistam seus coletes. PRÓXIMA PARADA: PRAIA DO BANANAL, ILHA GRANDE!

terça-feira, 8 de abril de 2014

"Pernas, para que te quero?" - Trilhas da Ilha Grande.

Em 2010, apresentei como Trabalho de conclusão do curso de Turismo, um Estudo de Caso sobre as trilhas turísticas da Ilha Grande, como um interessante caminho para a interpretação e a educação ambiental. Com isso, conheci por terra, cerca de 2/3 da Ilha Grande, localidades entre a Lagoa Azul (norte), a Vila do Abraão (nordeste) e Provetá e Aventureiro (sudoeste), que já havia conhecido em 1994, aos 9 anos de idade. Ainda não dei a volta completa à Ilha, entretanto, esse é um sonho que espero realizar em breve. Guias e caminhantes fazem a volta completa na Ilha em cerca de 7 dias, mas dizem que, para aproveitar bem a paisagem e a experiência e conhecer as pessoas do lugar (o que demanda tempo), recomenda-se fazer a volta em 10 dias.

 * Imagem cedida pelo autor José Bernardo para uso nessa página. Para uso/reprodução, entre em contato com o autor (jbtravessia@yahoo.com.br). Todos os direitos reservados.

Para começar, é bom falar um pouco a respeito da Ilha Grande. Sim, é um lugar incrível, em que o verde sobressalente da mata mergulha no verde-esmeralda do mar, formando paisagens ímpares! A Ilha de cerca de 193 km² localiza-se no município de Angra dos Reis, no sul do Estado do Rio de Janeiro, na região da Costa Verde.  A distância de Angra dos Reis para o município do Rio de Janeiro é de 149,5 km; para o município de São Paulo, é de 353,09 km; para Santos, 387,48 km; para Paraty, 88,62 km; e para Belo Horizonte, é de 491,03 km.

A Ilha conta parte da história do Estado e (por quê não?) do próprio país, tendo sido marcada como um “paraíso” de descanso da família imperial, campo de batalha de piratas e corsários, indígenas da Nação Tupinambá liderada pelo índio Cunhambebe e fazendeiros, como um porto para o tráfico de escravos negros, mesmo depois da abolição da escravatura, bem como foi sede de um Lazareto e de um Presídio para presos de alta periculosidade e presos políticos, o Centro Correcional de Dois Rios.

Mas voltando às “trilhas primárias” do texto, a Ilha Grande dispõe de 16 trilhas oficialmente traçadas, que ligam uma praia à outra, a igrejas e cemitérios antigos, algumas comunidades locais que oferecem hospedagem e refeições e que, em alguns casos, são um atrativo à parte, que não pode passar em branco. É um desperdício deixar passar despercebida a oportunidade de conversar com alguns moradores. Podem-se encontrar verdadeiras pérolas vivas olhando para esse lado da Ilha Grande, ao invés de vê-la  como mero “recipiente de belíssimas paisagens”. De certo, são paisagens inesquecíveis, mas já pensou na riqueza que se pode conceder à experiência com algumas conversas regadas a cafezinho com fruta-pão, ou inhame, ou mesmo biscoitinhos?

Fruta-pão na casa do Seu Nilo. Foto: Acervo pessoal.

As 16 trilhas oficiais são enumeradas de T1 a T16, são elas: Circuito do Abraão (T1), Aqueduto – Saco do Céu (T2), Saco do Céu – Freguesia de Santana (T3), Freguesia de Santana – Bananal (T4), Bananal – Sítio Forte (T5), Sítio Forte – Praia Grande de Araçatiba (T6), Praia Grande de Araçatiba – Gruta de Acaiá (T7), Praia Grande de Araçatiba – Provetá (T8), Provetá – Aventureiro (T9), Abraão – Praia dos Mangues/Pouso (T10), Pouso – Lopes Mendes (T11), Pouso – Farol dos Castelhanos (T12), Abraão – Pico do Papagaio (T13), Abraão – Dois Rios (T14), Dois Rios – Caxadaço (T15) e Dois Rios – Parnaioca (T16). Elas circundam quase totalmente a Ilha, exceto pelo trecho que passa pela Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul (RBEPS), entre as praias do Aventureiro e da Parnaioca, ao sul.

Em algumas trilhas, é altamente recomendável a presença de um guia local, embora isso não seja uma regra, uma obrigação. Mas é o guia que sabe os melhores caminhos, que conhece as trilhas corretas, e quanto maior a dificuldade da trilha, menos gente passa por ela, o que pode confundir até caminhantes experientes, porque a natureza sempre volta ao seu lugar.

T1: Circuito do Abraão
Essa é a trilha que considero a mais leve da Ilha (1 a 2 horas num percurso de 1700 a 1900 metros), em formato circular, e com parte do trecho plano, o que possibilita o acesso à experiência, em alguns trechos, inclusive a pessoas com dificuldades de locomoção. E, mesmo que seja uma trilha que considero fácil, ainda assim a experiência é muito rica. No percurso, encontramos as ruínas do antigo Lazareto; o Aqueduto, de 11 metros de altura, 140 metros de comprimento e 26 arcos, erguido em 1893, para o abastecimento de água do Lazareto; o Mirante do Abraão; o Poção, que é uma piscina natural; e a Praia Preta, caracterizada pelas areias monazíticas (de coloração preta), tida por suas propriedades medicinais.


Fotos: 1) Praia Preta. 2) Vista da trilha T1 (Acervo pessoal).

T2: Aqueduto – Saco do Céu
Trilha de nível médio, duração de 3h a 3h30, percurso de 7200 metros. Em seu decorrer, encontram-se a Cachoeira da Feiticeira (muito procurada para a prática de rapel, por seus 15 metros de altura), mangues, as Praias da Feiticeira, Iguaçu, Camiranga, Perequê, de Fora e o Saco do Céu. Suas águas são tranquilas por se localizar na baía, de frente para a costa de Angra dos Reis.


Fotos: 1) Aqueduto. 2) Cachoeira da Feiticeira. 3) Praia da Feiticeira (Acervo pessoal)

T3: Saco do Céu – Freguesia de Santana
Com nível de leve a médio, duração de 2h, percurso de 3900 metros. Suas atrações são: Praias da Guaxuma, do Funil (a menor praia da Ilha Grande, com 6 metros de faixa de areia), Japariz, Freguesia de Santana, onde há uma antiga igreja, cemitério, ruínas de construções. Há alguns bares e restaurantes.

 Fotos: 1) Igreja na Freguesia de Santana. 2) Praia do Funil.  (Acervo pessoal).

T4: Freguesia de Santana – Bananal
Nível médio, duração de 1h a 1h30, percurso de 2800 metros. Atrações encontradas no percurso dessa trilha: Praia da Baleia, Lagoa Azul (muito procurada para a prática de snorkeling), Ilha Comprida, Grumixama, Praia de Baixo, Ponta do Bananal, Bananal Pequeno, Praia do Bananal e Mirante do Bananal.



Foto: 1) Praia de Baixo (Acervo pessoal). 2) Praia do Bananal (Tom Oliveira).

T5: Bananal – Sítio Forte
Trilha de nível médio, duração de 1h30, percurso de 4900 metros. No decorrer da trilha, há cultivo de mexilhões, uma grande figueira branca , mangue, ruínas, mirantes, Praias de Matariz, Jaconema, Passaterra, Maguariqueçaba e Sítio Forte.




Fotos: 1) Praia de Maguariqueçaba. 2) Praia de Matariz. 3) Praia de Passaterra. 4) Sítio Forte (Bernardo José).

T6: Sítio Forte – Praia Grande de Araçatiba
Trilha de nível médio, duração de 2 a 3 horas, percurso de 6000 metros. Atrações encontradas são Praia da Tapera, Ubatubinha, Praia da Longa, a piscina natural da Lagoa Verde e a Praia Grande de Araçatiba.




Fotos: 1 e 2) Araçatiba. 3) Ubatubinha. 4) Tapera. (Bernardo José).

T7: Praia Grande de Araçatiba – Gruta do Acaiá
Trilha de nível médio a pesado, duração de 2h30 a 3h, percurso de 6000 metros. Praias encontradas no caminho são Araçatibinha, Itaguaçu e Praia Vermelha. A Gruta do Acaiá fica dentro de uma propriedade privada e sua entrada se faz mediante pagamento de uma taxa que, até janeiro desse ano, custava R$ 10,00. Ela é conhecida por ser uma gruta submersa, que é espetacular com o reflexo da luz na água.



Fotos: 1) Gruta do Acaiá. 2) Itaguaçu. 3) Praia Vermelha (Bernardo José).

T8: Praia Grande de Araçatiba – Provetá
Trilha de nível pesado, duração de 1h40 a 2 horas, num percurso de 4700 metros. No caminho, são vistos mirantes, riachos e a Praia de Provetá, onde há uma vila de pescadores evangélica, que está disposta em torno da Igreja. Há bares, padarias e alguma infraestrutura de hospedagem.


 Fonte: 1) Provetá vista da trilha para o Aventureiro. 2) Pescadores no cais de Provetá (Bernardo José).

T9: Provetá – Aventureiro
Trilha de nível pesado, duração de 3 horas, percurso de 3500 metros. A trilha leva à última comunidade tradicional de caiçaras que ainda se mantém na Ilha Grande, cuja economia gira em torno do Turismo e de algumas atividades na roça, nas casas de farinha e na pesca. Lá, você pode conhecer o famoso Coqueiro Deitado, o Mirante do Sundara, a Pedra do Espia, a Igrejinha, a Praia do Aventureiro e a Praia do Demo, ótima para a prática de surfe. No início do ano, ocorre a Festa de Santa Cruz, conhecida entre os turistas como Festa da Lua. Em alguns momentos os jovens fazem luaus na areia, com violão e outros instrumentos. O acesso à Praia do Sul e do Leste é proibida por ser parte da Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul.



Fotos: 1) Coqueiro Deitado, ao amanhecer. 2) Vista do Mirante da Sundara. 3) Praia do Aventureiro, Igreja de Santa Cruz ao fundo. (Acervo pessoal).

T10: Abraão – Praia dos Mangues/Pouso
Trilha de nível médio, duração de 2h30, percurso de 3900 metros. Atrações  são a Praia da Júlia, Praia de Palmas, Praia do Mangue e Praia do Pouso. Encontram-se, no caminho, mirantes, riachos, mangues e ruínas de construções antigas. Há bares em alguns pontos.


Fotos: 1) Praia do Pouso. 2) Praia dos Mangues. (Acervo pessoal)

T11: Pouso – Lopes Mendes
Trilha de nível leve, duração de 30 minutos e percurso de 900 a 1000 metros. Essa trilha é feita até por quem vai do Abraão até o Pouso de barco, para se chegar a Lopes Mendes, que passeia pelos rankings como uma das mais bonitas praias do Brasil e do mundo. Essa praia é rota de surfistas, em busca de ondas para sua prática, por ficar em área de mar aberto. No final da praia, estão uma antiga boia  que virou obra de arte nas mãos do artista Sylvio Cavalheiro, e uma Igrejinha.




  Fotos: 1) Capela em Lopes Mendes. 2) Obra de Sylvio Cavalheiro. 3) Praia de Lopes Mendes (final). Acervo pessoal.

T12: Pouso – Farol dos Castelhanos
Trilha de nível pesado, duração de 5 a 6 horas, percurso de 11000 metros. As atrações  encontradas no caminho são a Praia da Aroeira, a Praia dos Castelhanos, a Piscina dos Castelhanos e o Farol dos Castelhanos, mas para visitar o Farol é necessário autorização prévia, por se tratar de propriedade militar. O Farol ainda está em funcionamento.



Fotos: 1) Praia dos Castelhanos. 2) Farol dos Castelhanos - heliponto. 3) Farol dos Castelhanos (interior). Acervo pessoal.

T13: Abraão – Pico do Papagaio
Trilha de nível pesado, com duração de 7 horas (entre ida e volta), com distância percorrida (ida e volta) de 11800 metros. O Pico do Papagaio não é o pico culminante da Ilha Grande, com seus 958 metros de altitude, mas se tem uma vista panorâmica de toda a Ilha, além da Restinga de Marambaia e até de Ilhabela (SP) quando o tempo está sem nuvens. É recomendável caminhar nessa trilha com a companhia de um guia local. Encontram-se no caminho animais silvestres, alguns riachos e uma visão sensacional da Mata Atlântica.


 Fotos: 1) Vista do Pico do Papagaio. 2) Papagaio visto de baixo. 3) Início da trilha T13. (Acervo pessoal).

T14: Abraão – Dois Rios
Trilha de nível pesado, duração de 5h20 (entre ida e volta) em um percurso de 16600 metros (entre ida e volta). No caminho, encontram-se as atrações: Mirante da Curva da Morte, Piscina dos Soldados, ruínas do Presídio e do Centro Correcional de Dois Rios, Capela Nossa Senhora do Bom Despacho, Ecomuseu. Há bares, e são vendidos em algumas casas sacolés maravilhosos e refrescantes (os de coco e de amendoim são meus favoritos!).



Fotos: 1) Piscina dos Soldados. 2)  Praia de Dois Rios. 3) Entrada da Vila de Dois Rios (Acervo pessoal).

T15: Dois Rios – Caxadaço
Trilha de nível médio, com duração de 4 horas (entre ida e volta), num percurso de 6000 metros, entre ida e volta. Há, no caminho, mirantes, riachos, ruínas, o Caminho das Pedras, construído por negros escravizados, traficados em navios tumbeiros, que lá atracavam por ser uma praia escondida. Cuidado ao andar por esse caminho, pois as pedras são escorregadias e podem ocasionar quedas. Sou experiência disso!

Foto: Praia do Caxadaço (Acervo pessoal).

T16: Dois Rios – Parnaioca
Trilha de nível médio, duração de 6 horas (ida e volta) em um percurso de 15500 metros (ida e volta).  As atrações são a Toca das Cinzas (onde eram escondidos os negros escravizados, a Igreja Sagrado Coração de Jesus, a Cachoeira da Parnaioca e a Praia da Parnaioca. Há também ruínas, um cemitério centenário, e campings.

Foto: Praia da Parnaioca (Bernardo José)

Se você vai fazer trilha na Ilha Grande, é muito importante levar dinheiro vivo, porque há estabelecimentos comerciais que não aceitam cartão, principalmente fora da Vila do Abraão ("capital da Ilha Grande"), e não há caixas eletrônicos nem bancos. 

Outro detalhe, para escolher um guia de turismo, tenha referências à mão, para não ter surpresas negativas e frustrar sua experiência. Eu sempre recomendo o João Pontes, que, desde minha pesquisa em 2010, deu-me apoio total, é muito bem informado, educado experiente e ama o que faz. Sua página no facebook é: http://facebook.com/joaopereirapontes . 

Fotos: 1) Guia João Pontes (Acervo pessoal). 2) Livro "Caminhos e Trilhas da Ilha Grande", de Bernardo.

E, para quem caminha sem um guia de turismo, eu recomendo o livro "Caminhos e Trilhas da Ilha Grande", do autor e amigo José Bernardo, que traz um pouco da história, imagens, e roteiros para quem vai dar  a volta na Ilha ou fazer algumas das trilhas apenas, além de descrever os cuidados que devem ser tomados trilha a trilha, o que é muito importante. Não é apenas um livro de prateleira, mas um "livro de mochila", para levar nas andanças até.

* Fontes:
SILVA, Juliana Fernandes da. Trilhas Turísticas da Ilha Grande: um caminho para a interpretação e a educação ambiental. (meu TCC), 2010.
BERNARDO, José. Super Mapa da Ilha Grande, 2013.